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Como foi você, Geração 80?

A contabilidade registra poucos sobreviventes entre os que foram saudados como renovadores da arte contemporânea brasileira

Por Daniel Piza

Qual o balanço da chamada “Geração 80”? Saudados sem quase nenhum critério quando despontaram, em meados dos anos 1980, os artistas daquele período continuam, hoje, sendo referência forte no fraco mercado de arte local. Nomes que então surgiram ocupam ainda posição de destaque no cenário, enquanto diversos desapareceram ou se perderam. Tendo nascido como reação à arte conceitual “fria e hermética” dos anos 70, raros foram os que amadureceram para além de um personalismo fácil. Passado o modismo, o que ficou?

Uma das características marcantes daquela geração foi sua tentativa de “sintonia” com uma retomada da pintura e de uma arte mais direta e emotiva, praticadas na Itália, nos Estados Unidos e na Alemanha por artistas tão díspares quanto Mimmo Paladino, Julian Schnabel e Anselm Kiefer. Na Bienal de 85, por exemplo, a curadora Sheila Leirner dedicou toda uma seção da mostra aos pintores emergentes, a “Grande Tela”. Grupos como a Casa 7, em São Paulo, e o Ateliê da Lapa, no Rio, eram criados sob patrocínio de marchands como João Sattamini e Thomas Cohn; em São Paulo, essa produção era repercutida por Luisa Strina e Paulo Figueiredo. A formação de grupos era outra característica marcante. Já um ano antes, a famosa exposição na escola do Parque Lage, Como Vai Você, Geração 80?, reunia 123 artistas que supostamente a comporiam. Críticos como Frederico Morais e Marcus Lontra passaram a defender o informalismo e o “calor” daquela arte. Artistas-professores como Luiz Áquila pregavam o gestual e o colorido.

Em menos de sete anos, porém, o movimento era dado como morto por Lontra: “O sonho acabou mais uma vez” (Jornal do Brasil, 1990). A agitação passou, e aquilo que se precipitou não tinha fincado raízes. Criadores como Leonilson e o próprio Áquila ganharam um tom inequivocamente datado. Outros, os mais talentosos, praticamente reinventaram sua obra para sobreviver em destaque nos anos 90, como Daniel Senise e Nuno Ramos, diante da ascensão da nova geração. E finalmente despontaram pintores que haviam se formado nos anos 80 sem obter relevo, como Paulo Pasta e Beatriz Milhazes. Alguns como Paulo Monteiro e Carlito Carvalhosa, ex-Casa 7, e Ângelo Venosa, ex-Ateliê da Lapa, ainda parecem irregulares. Carvalhosa apresenta obras com gesso em que se preocupa em subverter a sensação de peso e equilíbrio — ou seja, uma preocupação curiosamente próxima do conceitualismo frio dos anos 70.

Aquela geração que parecia tão autoconfiante em suas pinceladas livres, em suas festas delirantes e em seus preços exorbitantes — em sua “juvenília” publicitária (“Colecionador jovem quer comprar artista jovem”, sentenciava Sattamini) — hoje se dissolveu. Não há a menor unidade em seus sobreviventes; tampouco há herdeiros; ninguém pinta “à maneira da Geração 80”. O romantismo custou muito, e, quando a bolha murchou de novo, os brilhos de superfície se apagaram. O amadorismo daquelas “bandas de rock”, na comparação feita por Dudi Maia Rosa (outro veterano idolatrado pela Geração 80), ficou patente. Veio a geração de 90, que nunca se pretendeu “Geração 90” — Jac Leirner, Adriana Varejão, Rosângela Rennó —, e os 123 “inovadores” se reduziram a meia dúzia. Em compensação, o mercado hoje é tímido, o debate idem, e a pintura só resiste por obra de reclusos solitários.

(Texto originalmente publicado na edição nº 22 de BRAVO!, julho de 1999)