Quarta-feira,
5 de janeiro de 2000

 

 

Trabalhos de Le Parc convidam à interação

Mostra na Usina do Gasômetro reúne pinturas e peças feitas de luz e movimento


ANGÉLICA DE MORAES
Especial para o Estado

Uma boa exposição de arte é aquela em que o espectador sai enriquecido em sua percepção. Isso é o que ocorre com as pessoas que vão visitar a mostra de Julio Le Parc na Usina do Gasômetro. O argentino Le Parc, com 71 anos e há 40 radicado em Paris, é um dos grandes nomes da arte cinética, isto é, da arte que, por incorporar o movimento e a luz elétrica, pode ser considerada a proto-história da arte eletrônica.

Filho de ferroviários (como Iberê) , Le Parc tomou contato ainda na adolescência, em Buenos Aires, com o grupo marxista Arte Concreta Invenção, liderado por Lucio Fontana (o grande mestre dos concetti spaziale, obras em que rasgos ou furos na tela trazem nova dimensão à pintura planar) . Fontana defendia uma rigorosa abstração geométrica.

O trajeto proposto pela curadora Sheila Leirner começa por séries de pinturas de Le Parc feitas no fim dos anos 50 em que o rigor abstrato-geométrico está conjugado às primeiras demonstrações do interesse do artista pelo movimento: quadrados ou círculos evoluem pela superfície da tela, como fotogramas de um filme.

Essas telas progridem na ilusão de ótica e na vertigem produzida ora por círculos concêntricos, ora por faixas ondulantes filiadas à op art ou ao obsessivo e colorido pontilhado que pode ser visto como atualização do legado de Seurat.

Todas essas obras preparam o visitante para a beleza impactante das peças feitas de luz e movimento colocadas em salas negras. Núcleo da mostra, esse segmento possui um fascínio infalível, que atravessa décadas. Alguns dos mais belos trabalhos( como Continuel-Lumière avec Formes en Contorsions) são dos anos 60.

A obra Continuel-Lumière au Plafond sugere uma poética janela para a mecânica celeste e a imensidão de um céu estrelado. Nós, pobres urbanóides engavetados em horizontes de concreto, ficamos extasiados.

Há luzes pulsantes e luzes que percorrem uma trajetória determinada por um mecanismo, fatiando o espaço em diversos planos ou volumes. Há sons acionados pelo espectador em interação com elementos como placas ou fragmentos de metal ou madeira. As crianças adoram, o que dá uma dimensão do vigoroso apelo aos sentidos exercido pelas obras de Le Parc.

A visitação pode terminar (ou começar, porque é infinita e circular) com um também irresistível convite ao lúdico, ao jogo com bolinhas de pingue-pongue acionadas por pinos rolantes ou à descoberta das possibilidades de observar algo muito conhecido (a própria face) por meio de espelhos que multiplicam ângulos e alongam dimensões.

Como bem assinala Sheila Leirner no texto do catálogo, "há tanto o espírito da participação ambiental típico da época da pop-art quanto um envolvimento e uma surpresa que tornam próxima e familiar a relação da arte com o público". (A.M.)

 

 

 


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