São Paulo, segunda-feira, 07 de maio de 2001

O mestre da luz


O artista argentino Julio le Parc, um dos pioneiros da arte cinética, abre hoje mostra na galeria Nara Roesler e, na próxima quinta, na Pinacoteca do Estado

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

Quem não gosta de se surpreender com novas experiências, daquelas que mágicos e ilusionistas costumam apresentar? Pois a partir de hoje, esse mesmo tipo de sensação -mas não tão banal assim- pode ser vivenciada por meio das obras que o argentino Julio le Parc traz a São Paulo.



Hoje na galeria Nara Roesler e, na quinta, na Pinacoteca do Estado, le Parc mostra um conjunto de instalações de tirar o fôlego. São obras que exploram as possibilidades do uso da luz de maneira lúdica, envolvente e até mesmo hipnótica.
Essas idéias são justamente a chave para a compreensão da corrente que melhor identifica le Parc: a arte cinética. A primeira mostra de arte cinética -"Le Mouvement"- foi realizada em 1955, pela galeria Denise René, de Paris. Ela reunia trabalhos de Calder, Duchamp e Yves Klein, entre outros. Mas foi em 1960, com a criação do Groupe de Recherche d'Art Visuel (Grav), do qual le Parc foi um dos fundadores, que a arte cinética ganhou uma referência permanente. Contramanifestações artísticas em circuitos fechados, o grupo apresentava-se em lugares alternativos e mesmo nas ruas.
"Queríamos contestar a idéia do gênio criador, subverter e transformar a arte", conta le Parc à Folha. Para tanto, o método foi "a busca de formas e cores que aproximassem as pessoas em geral".
Nos incendiários anos da década de 60, essa reflexão era essencialmente um manifesto político. Mas quem for a uma das mostras de le Parc na cidade vai perceber que o político aqui tem uma função estética e não panfletária. "Suas obras propõem uma participação visual no sentido democrático e não-elitista da arte", afirma Sheila Leirner, a curadora das duas mostras.
Segundo Nara Roesler, foram dois anos de negociação para trazer le Parc a São Paulo. Em 99, o artista teve uma sala especial na 2ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, com 15 instalações e seis pinturas. A idéia de apresentar o artista foi de Fábio Magalhães, o curador-geral da Bienal.
Foi lá que Roesler decidiu realizar aqui uma mostra do artista. "Era o conjunto com mais vida, eu vi isso nos rostos das pessoas. Logo em seguida conversei com Emanoel Araújo (diretor da Pinacoteca) para apresentar as obras em seu museu", conta.
As obras que le Parc traz à Pinacoteca são as mesmas apresentadas em Porto Alegre. A diferença é uma enorme instalação na sala central do museu, criada especialmente para o local. Com cinco metros de diâmetro, em vez da luz artificial, presença constante em suas obras, é a passagem do sol no teto do museu que dará movimento à obra. Em busca de patrocínio, Araújo torce para que a instalação faça parte do acervo permanente do museu.
Já para sua galeria, Roesler convidou também Leirner para a seleção das 33 obras da mostra. "Ambos vivem em Paris, seria tudo mais fácil", afirma a galerista.
"São peças inéditas no Brasil; é tudo diferente, mas tudo tem um profundo vínculo", conta a curadora. Leirner escolheu desde pequenas obras e peças dos anos 60 até grandes instalações e peças recentes. A maior delas -a que aparece com o artista na foto ao lado- é um convite a experimentar o sublime. Ela foi criada em 78 e é composta por vários retalhos de tule suspensos e envoltos por por projeções luminosas. Os visitantes podem caminhar entre os tules. É como andar nas nuvens.
"A luz surgiu em minhas obras para solucionar problemas; não é uma apologia à tecnologia, mas o que me interessa é o processo", conta le Parc.
As idéias do artista tiveram tanto êxito que, mesmo no auge da arte pop norte-americana (de Warhol e Lichtenstein), le Parc recebeu o Prêmio Máximo da Bienal de Veneza, em 66.
Lá se vão os tempos de contestação, e hoje le Parc expõe -merecidamente- com tapetes vermelhos. "Mas eu continuo o mesmo e não recuso nenhum convite."

JULIO LE PARC RETROSPECTIVAMENTE - Mostra com 33 trabalhos do artista argentino. Curadoria: Sheila Leirner. Onde: Galeria Nara Roesler (av. Europa, 633, São Paulo, tel. 0/xx/11/3063-2344). Quando: abertura hoje, às 21h30; de seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 15h. Até 9/6. Quanto: grátis. Preço das obras: de US$ 2.700 a US$ 59 mil.

JULIO LE PARC E HOMENAGEM ÀS MÃOS SILENCIOSAS - Mostra com 15 instalações e seis pinturas do artista argentino; 35 tapeçarias de Martha le Parc. Curadoria: Sheila Leirner. Onde: Pinacoteca do Estado (pça. da Luz, 2, São Paulo, tel. 0/xx/11/229-9844). Quando: abertura na quinta, dia 10, às 19h30 (para convidados); de ter. a dom., das 10h às 18h. Até 1º/7. Patrocínio: BCP Telecomunicações e Banco Safra. Quanto: R$ 5.

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