São Paulo, domingo, 20 de maio de 2001

Polêmicas na era dos megaeventos

ALVARO MACHADO
FREE-LANCE PARA A FOLHA

A falta de documentação em fotos, filmes e vídeos é um problema identificado por vários artistas brasileiros que tiveram destaque nas edições do evento realizadas nas décadas de 50 e 60.
Marcelo Grassmann aponta o descaso: "Hoje podemos ver jogos de futebol de 40 anos atrás, porém as brilhantes Bienais dos anos 50 e 60 se tornaram lendas e só podem ser apreciadas em catálogos "mortos'; mesmo agora, com tantos recursos, não existe preocupação de registrar o evento de uma maneira mais exaustiva".
No final dos anos 70, com o panorama político brasileiro se arejando, o então presidente da Bienal, o industrial Luiz Villares, chamou Walter Zanini para percorrerem juntos países de três continentes, conclamando o retorno geral à Bienal paulistana.
"Países como os EUA ficaram vários anos sem vir ou mandando coisas menores. Em nossas visitas, tanto tempo depois de 69, o mal-estar ainda era enorme", recorda Zanini.
A mesma época viu nascer ainda outra crise, enraizada na consolidação do mercado brasileiro de arte, que manifestava talentos especiais para jogos de manipulação financeira. Em 77, sem instrumentos para controlar tais pressões, a Bienal aboliu suas premiações, embora estas alimentassem acervos museológicos, especialmente o do MAC-USP.

"A GRANDE TELA"
As aberrações do sistema de prêmios eram apontadas pelos críticos mais independentes e pela maioria dos artistas. De um lado, a seleção demasiado concessiva dos júris favorecia uma quantidade exagerada de artistas brasileiros: "Entrava tudo, sem rigor, como num salão", lembra Zanini.
Já Mário Pedrosa observou: "Os prêmios e escolhas dos júris começaram a ficar muito ligados a interesses de marchands e mercados. Porém as premiações perderam representatividade não só por questões políticas mas pela própria diversidade da arte contemporânea" (os novos suportes, instalações, arte conceitual etc.).
Zanini assumiu a direção das Bienais de 81 e 83 e inaugurou um estilo autoral de curadoria, restaurando em parte o prestígio do evento. Para tanto, acabou com a seleção de brasileiros via inscrição e passou a convidar diretamente os artistas, inclusive os estrangeiros, antes selecionados pelos respectivos corpos diplomáticos.
Sobretudo, Zanini extinguiu o modo de exibição por países (as "jaulas") e passou a mesclar as representações, explorando analogias e contrastes de linguagem.
"Faltava um sentido crítico, que começou a ser fornecido pelas curadorias, pois o que havia antes eram apenas convites consulares, um mal que até hoje subsiste", diz o ex-diretor do MAC. Nessa fase também foi instituído o núcleo histórico da mostra.
Um pequeno escândalo, ligado justamente à radicalização do olhar crítico, atravessou a 18ª Bienal (85), com curadoria de Sheila Leirner. Atualizando a mostra com uma montagem pós-modernista, a crítica alinhou centenas de quadros num corredor gigante intitulado "A Grande Tela".
Em protesto a tal nivelamento, várias delegações européias, entre elas a alemã, retiraram obras do mural gulliveriano. "Foi um ato de coragem da curadora", considera o crítico Tadeu Chiarelli, ex-curador do MAM.
A partir de 89, montagens deficientes e conceitos obscuros são apontados pela crítica, porém a maior e mais recente crise liga-se, outra vez, às instâncias administrativas da Fundação Bienal -e a seus 60 conselheiros, entre intelectuais, banqueiros e empresários, com graus diversos de esclarecimento, ou seja, uma espécie de microcosmo do poder na cidade mais rica do país.
Assim, a última pedra no caminho da Fundação Bienal -que recebe anualmente a dotação de R$ 1 milhão da Prefeitura para realizar exposições- começou a se materializar com a cessão do Pavilhão Bienal para a Mostra do Redescobrimento, realizada em 2000 pela Associação Brasil + 500, entidade presidida pelo banqueiro Edemar Cid Ferreira, também integrante do Conselho da Bienal.
A megaexposição, inaugurada por FHC, ainda repercute no exterior as comemorações brasileiras pelos 500 Anos e responde pelo feito de atrair ao Ibirapuera um público recorde de mais de 1,8 milhão de visitantes. De outro lado, ficou em cartaz por cerca de seis meses, o que impossibilitou, na prática, a realização da 25ª Bienal no mesmo ano.
Entre outros prédios do Ibirapuera, a Associação Brasil + 500 obteve a cessão da chamada Oca, prédio vizinho ao MAM, que passou por grande reforma para abrigar uma das seções da mostra. Segundo o atual presidente da Fundação Bienal, o arquiteto e construtor Carlos Bratke, isso teria irritado a conselheira Milú Villela, atual presidente do MAM e também do Instituto Cultural Itaú.
"Tanto Edemar como Milú disputavam aquele prédio, e os grupos que eles lideravam no Conselho da Bienal chegaram às raias da agressão", recapitula Bratke.
Ainda que o embate seja negado hoje pelos principais protagonistas, a administração de 2000 foi sacudida por episódios como a disponibilização dos cargos de Bratke e do presidente do Conselho da Bienal, Luiz Seraphico.

O EVENTO ADIADO
O primeiro foi confirmado em seu cargo, e o segundo, de comportamento considerado "pouco ético" por alguns conselheiros, solicitou sua demissão. Ao mesmo tempo, o crítico Ivo Mesquita, contratado para curar a 25ª Bienal em 2001, discordou publicamente de um novo adiamento, para 2002, aprovado pelo conselho.
"A maioria considerou que seria impossível realizar outro megaevento poucos meses após a Mostra do Redescobrimento", diz Bratke. O curador Mesquita foi demitido, reintegrado e, finalmente, pediu demissão. "Foi pena, pois ele já havia trabalhado muito", lamenta seu ex-professor Walter Zanini.
Como desfecho, Milú Villela e um grupo de seis conselheiros ligados a ela se retiraram da Fundação. Quebrando silêncio de quase um ano sobre o assunto, Milú declarou à Folha: "A Oca ou Edemar jamais seriam motivo para a minha saída, junto a outros seis conselheiros totalmente idôneos. O MAM não assumiria a Oca nem se esta lhe fosse oferecida. Na verdade, saímos acompanhando o curador Ivo Mesquita, em protesto pelos rumos tomados na administração da Bienal".
Evento adiado, optou-se pela solução intermediária da atual mostra-homenagem a Ciccillo e aos 50 anos de sua invenção. Para Bratke, uma das grandes virtudes da exposição comemorativa foi ter mantido empenhadas em tarefas de organização e captação de recursos as três ou quatro facções em que veladamente se divide hoje o corpo da Bienal.
Para descrever melhor a situação, o presidente recorre a um aforismo do reformador religioso Lutero: "Com a mostra "50 Anos" os conselheiros ficaram longe das fofocas; felizmente, pois, como se viu no ano passado, "cabeça vazia é oficina do diabo'".



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