Domingo, 4 de junho de 2000    

Mundo da arte não tem mais como se indignar
Pouco espaço dado pela mídia às manifestações das artes visuais e ao debate sobre as diferentes expressões faz com que artistas e público tenham poucas referências sobre os trabalhos
ARACY AMARAL

Especial

 

Sem temor de erro, a crítica de arte, tal como é e foi entendida até há pouco tempo, não é mais exercida no Brasil na imprensa diária. A mídia impressa favorece apenas a reportagem sobre eventos de artes visuais, mesmo que nos textos publicados possa estar implícita uma interpretação, uma visão subjetiva, crítica, de seu autor. A crítica de arte, porém, enquanto presença, diária ou semanal, foi excluída há anos da imprensa escrita, talvez como uma tendência internacional nesse sentido.

Não creio que esse dado tenha beneficiado o meio artístico. Num país em que é praticamente inexistente a formação artística em sólidas escolas de arte dotadas de ensino de História da Arte em todos os semestres do curso, os artistas jovens formam-se em workshops de duração efêmera com artistas mais experimentados, porém, com as mais diferenciadas tendências e graus de qualidade, a presença de uma crítica regular poderia atuar como forma de sinalização. Para os artistas que se iniciam ou para os artistas veteranos.

Mesmo que nessas críticas o subjetivismo seja inevitável, e que cada autor possua uma postura ante as manifestações poético-expressivas. Nem sequer breves resenhas sobre cada exposição pequena ou grande são publicadas por nossos periódicos. Não há indignação, menosprezo ou polêmica sobre as opiniões dos críticos, porque simplesmente eles não são visíveis. Tratamento desigual, portanto, ao dado ao cinema.

Alega-se que a audiência para artes visuais é irrisória. Mas ainda será sem espaço na mídia. Claro que há exposições que não merecem referência, por sua mediocridade ou baixo nível. Em geral, o jornal comparece hoje apenas com uma reportagem noticiosa, de acordo com a simpatia daqueles que detêm o poder decisório nas redações, no dia da abertura da mostra, caindo o silêncio pesado sobre esses eventos nos dias que se seguem à abertura da mostra que, como se sabe, cuja curação varia de 15 dias a dois meses.

Foi-se o tempo em que tínhamos críticos como Sérgio Milliet, José Geraldo Vieira, Geraldo Ferraz, e mais tarde Sheila Leirner, em São Paulo, e Mário Pedrosa, Jayme Maurício ou Frederico Morais, no Rio, por exemplo, escrevendo regularmente em jornais sobre o que se passava em arte. E não apenas sobre artes visuais, pois havia igualmente crítica de cinema, teatro, dança, música, etc.

Dessa forma, como e onde atua hoje aquele que é considerado crítico de arte?

Creio que há um leque amplo de alternativas para suas funções, nas quais se espera que o crítico culto - é uma obrigatoriedade que seja um investigador constante - atue com independência, sem subserviência e, sobretudo, com transparente sentido de ética. Do contrário, corre o risco de tornar-se presa fácil do ambiente frívolo que rodeia o meio das artes, localizado no limite estrito, fio da navalha, entre os que detêm o poder do dinheiro e o campo da capacidade criadora de valor, ou enganosa.

Personalização - O crítico, assim, a partir de uma postura definida - que o personaliza -, diante da arte e do momento, pode atuar escrevendo ensaios sobre artistas, em antologias ou livros a serem publicados, colaborando em revistas especializadas, com textos breves, como abertura de catálogos de exposição, ou trabalhando como assessor da área de artes em instituições promotoras de eventos, ou como júri de salões - o que o ajuda a saber quem está produzindo o quê, aonde - e propicia seu conhecimento sobre as novas gerações, posto que somente artistas emergentes candidatam-se a salões nas duas últimas décadas.

O crítico também pode encaminhar-se para a História da Arte, como pesquisador, integrando-se à universidade, na qual passa a ser professor canalizando seus conhecimentos na difusão do desenvolvimento das artes plásticas ou visuais através dos tempos. No entanto, aqui também outra contradição no Brasil, pois, fora a recente exceção da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não possuímos um instituto de História da Arte, formador de historiadores da arte. Esforços foram feitos em vão, para esse fim, dentro da Universidade de São Paulo (USP), paradoxalmente possuidora de um notável acervo de artes plásticas, no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP).

Elocubração mental - A partir do fim dos anos 70, começou gradualmente a aparecer um tipo de crítica, fenômeno análogo ao ocorrido em outros países, vinculada à filosofia, com autores oriundos dos departamentos de filosofia das universidades, e não mais diretamente formados no contato com os artistas visuais. Por vezes, essa crítica me parece inspirar-se no objeto artístico como um ponto de partida para uma elocubração mental, e parece voar, distante da busca de uma tentativa de decodificação ou interpretação das criações artísticas dentro do contexto em que vivemos.

Torna-se hermética, em isolacionismo que a poucos é dado transpôr por um pedantismo de linguagem que todos reconhecem, embora muitos achem que quanto mais inacessível mais profunda deve ser por sua ininteligibilidade.

Curiosamente, os americanos não se expressam em arte a esse nível de complexidade. Será peculiaridade da retórica latina?

Críticos mais experimentados também exercem hoje - e creio que somente a estes pode caber essa função - a curadoria de exposições, tarefa difícil, e nem sempre real, posto que juntar obras para uma exposição nunca foi conceituar uma curadoria. Finalmente, as tarefas do crítico de arte estão alteradas, posto que, também de acordo com a dinâmica de nosso tempo, mudou a natureza da arte.

Aracy Amaral é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e ex-diretora do MAC/USP e da Pinacoteca