Temos bons artistas, mas pouco se exerce o pensamento crítico.

JACOB KLINTOWITZ

Revista Problemas Brasileiros - Jan/Fev - 2003

Pouca crítica

A questão reflexiva, fundamental na criação de uma grande arte, lamentavelmente vem de derrota em derrota, no Brasil. Já tivemos, em levas sucessivas e concomitantes, escrevendo sobre arte, periodicamente, nos principais veículos de comunicação de massa de nosso país, intelectuais e críticos de nomeada. Para nos restringirmos a alguns nomes e ao período abordado, podemos elencar, entre outros, Mário Pedrosa, Jaime Maurício, Pietro Maria Bardi, Geraldo Ferraz, Mário Schemberg, Roberto Pontual, Harry Laus, Sheila Leirner, Olívio Tavares de Araújo, Ferreira Gullar, Quirino Campofiorito, Radha Abramo, Rubem Braga, Alberto Beutenmüller, Paulo Mendes de Almeida, Enock Sacramento, José Roberto Teixeira Leite, Walmir Ayala, Geraldo Edson de Andrade, Flávio de Aquino.

Muitos desses comentaristas, com colunas permanentes em veículos como "Correio da Manhã", "Jornal do Brasil", "Tribuna da Imprensa", "O Estado de S. Paulo", "Folha de S. Paulo", revistas "Visão", "Veja", "Manchete", Rede Globo de Televisão. Hoje, a pretexto da fragmentação de assuntos e público, quase nada se publica de crítica e muito de reportagens genéricas e superficiais. Ora, se a fragmentação vale como pretexto e argumento, não há como explicar a presença diária de colunas sobre política, economia, futebol, bolsa de futuros, etc., também setores que não interessam a todos.

Onde se exerce o pensamento crítico, em nossa sociedade ? Nas universidades, as sucessivas teses de mestrado e doutorado obedecem a regras rígidas de forma e exposição, limitando a ousadia e o risco. Artigos na mídia sobre assuntos do momento e em livros de arte e outros ainda são poucos e limitados. Resta a curadoria de mostras temáticas e individuais e, também nesse caso, dadas as peculiaridades nacionais, é bastante restrita ao patrocínio e à neutralidade não polêmica, seguidamente laudatória, das instituições. Também os cursos especiais ministrados por altas personalidades, a convite de universidades, bem pagos e com tempo de preparação, são inexistentes no país.

A ausência de crítica verdadeira impede a interlocução entre artistas e sociedade e dificulta a criação de uma grande arte. O que observamos na mídia de massa é a repetição mecânica de idéias e princípios, e a louvação não especializada, ignorante, temerosa e bajuladora das formas que aparentemente são da vanguarda ou da criação. A ausência de pensamento crítico impede que se estude a forma no seu contexto estético e social. Ela passa a ser "natural", eterna, imobilizando a sociedade em seu processo permanente de transformação. Morre a metamorfose. Saúda-se a imobilidade.

Paradoxo. O circuito de arte mudou vertiginosamente no país. De poucas instituições, nos tornamos ricos em número e em atividades. O Brasil passou a fazer parte, em certa medida, do circuito internacional e recebe muitas mostras itinerantes. Hoje, temos dezenas de museus, institutos e centros culturais, departamentos de cultura. Nesse sentido, nos tornamos ricos e dotados de uma extensa e qualificada rede de locais adequados. Aqui, enfrentamos um paradoxo. As instituições, em sua maioria, estão sendo dirigidas por grandes empresários, banqueiros, homens de negócios. Isso é bom. O que não é tão bom é que esses empresários, em boa medida, tenham se tornado verdadeiros curadores culturais das instituições. Não só são administradores e captadores de recursos, o que seria natural, mas orientam a linha cultural, o sentido das exposições, às vezes a própria montagem da mostra, fato que explica a perda acentuada de qualidade, substituída pelo simples espetáculo, tão a gosto das almas e mentes simples e kitsch.

Dessa maneira, esse avanço institucional enfraqueceu a gestão profissional e os conselhos de arte e cultura. Na verdade, essa "ocupação" se deve à extrema pobreza econômica brasileira nessa área. As instituições morrem por falta de dinheiro. E se tornam presa fácil dos que desejam lustrar o ego, construir uma imagem pública, satisfazer a vaidade. Ou os que, simplesmente, ignoram a complexidade de nossas questões culturais. A esperança é que esses empresários, que ocupam e desempenham todos os papéis, sejam um fenômeno passageiro nesta transição para a maturidade e que, um dia, possamos administrar a cultura com o mesmo padrão e métodos semelhantes aos que vêm sendo utilizados nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão e outras dezenas de países desenvolvidos