Entrevista com Jean Baudrillard - 1997



Aos 69 anos, Jean Baudrillard. é um dos escritores mais radicais da França, o que lhe vale a desconfiança e, não raro, o ódio da parte "politicamente correta, mas, muitas vezes, intelectualmente obtusa" dos meios acadêmicos e artísticos da França. Agora chega às livrarias francesas sua obra mais recente, Écran Total, já conhecida dos brasileiros. O livro, cuja versão em português foi lançada com o título Tela Total - Mito-Ironias da Era do Virtual e da Imagem, reúne artigos de Baudrillard publicados no Libération entre 1993 e 1997. Autor de cerca de 40 obras, nesta entrevista ele fala, entre outras coisas do seu mais recente livro de entrevistas, Le Paroxyste Indifferent, em que se define "à imagem do nosso mundo", "nem fanático, nem proselitista, nem exorcista". Possui "apenas a violência do paroxismo e o charme discreto da indiferença - justo balanço entre os extremos, exatamente lá, nos confins da indiferença, onde brilha ainda um vislumbre de desespero".

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Sheila Leirner - Hoje nós vamos falar, entre outras coisas,das últimas polêmicas sobre a arte contemporânea, desencadeadas pelo seu artigo O Complô da Arte, publicado no jornal Libération, de sua "performance" em Las Vegas, dos mal-entendidos em torno de suas idéias que estão lhe chateando, e das críticas que você tem sofrido por ter publicado um artigo em Krisis, uma revista de extrema direita. Vamos falar também do seu último livro " O Paroxista Indiferente"  ; e... também do fato que você não quer aparecer hoje à noite no programa de Guillaume Durand, no LCI (o canal de informações da TF1)...

Jean Baudrillard - O-lá-lá... (Risos) Não sei se estou em boa forma. Hoje minha cabeça está um pouco confusa...

S.L. - Em nossas outras entrevistas você disse a mesma coisa, e sempre soube expor com muita clareza os seus pensamentos...

J.B. - O que você quer perguntar?

S.L.- Penso que você concorda que é um dos pensadores mais mal compreendidos aqui na França. Ultimamente os jornais e revistas andam cheios de protestos contra as suas posições, e na maior parte das vezes não se responde ao que você diz, mas ao que se tem vontade de polemizar. Em outros países você sente a mesma incompreensão?

J.B. - Em outros lugares me compreendem melhor no sentido em que aceitam... quer dizer, há muitos malentendidos também, mas não no sentido da incompreensão. Em toda parte a disponibilidade é muito maior, não existe esta espécie de muro, de bloqueio, de resistência, e mesmo este preconceito desfavorável, que vem crescendo no decorrer do tempo. Pois aqui não era assim antes, agora isso toma uma forma...não quero ser paranóico, mas há de todo modo uma forma de cristalização, de conjuração, sobretudo nos últimos tempos... Nos outros países as coisas não se passam assim porque ninguém participa desta espécie de atmosfera de moralização intelectual daqui, e desta hipocrisia. Quer dizer, não se trata de uma grande hipocrisia, mas de um cinismo ordinário, racismo ou fascismo comum. A hipocrisia aqui não tem o sentido da duplicidade ou da libertinagem, porque se fosse isso seria ótimo…

S.L. – Estamos generalizando, mas este é, de fato, um fenômeno francês: reacionarismo, incapacidade de prospecção, falta de generosidade e mesmo de inteligência. E no Brasil, como você se sente?

J.B. - O que eu gosto nos outros países, é que as pessoas não tem a mesma duplicidade com relação a você . Eles podem não estar de acordo, mas isso é normal. Existe uma abertura… No Brasil, então, é quase que bom demais, pois os preconceitos são favoráveis (risos). Ali há pequenos malentendidos também, mas no sentido positivo. Não só no Brasil, mas em outros países, há uma coisa um pouco mítica, você acaba como a encarnação do pós-moderno, do virtual, de coisas bem classificadas como estas…

S.L. – Mas tudo isso é um pouco verdade, não é ?

J.B. – É verdade. Porém, você vira uma espécie de ícone… há uma sacralização, e isso também é uma coisa bem brasileira, a dimensão mediática é muito forte…

S.L. – Talvez tenhamos uma visão mais prospectiva do que a França…

J.B. - Sim, sim, é isso. Vocês me vêem principalmente como um ente de ficção científica ! (risos) O fato é que nesses países há sempre o benefício diferencial que você tem por ser estrangeiro. Eu pessoalmente gosto muito de vir de fora e também aprecio muito as coisas que vem de fora, de modo que isso funciona ! Mas no universo francês, se você vem do exterior, isso é mal visto…

S.L. – Penso que no Brasil, as pessoas reconhecem também os seus próprios valores, o que não acontece aqui. Como você me disse na última entrevista, aqui é preciso morrer antes…

J.B. – Sim. No Brasil, existe uma disposição intelectual e humana mais generosa, uma curiosidade, um respeito.

S.L. – E um certo " relax" … ninguém tem medo de parecer ridículo. Você é mal visto na França também por causa da sua coragem de se expor, e trair as expectativas das pessoas, desafiando a chamada "inteligência políticamente correta", que é tensa demais ! Tomemos as coisas desde o início: ninguém lhe perdoou, por exemplo, quando você disse que a Guerra do Golfo não existiu...

J.B. – O início da polêmica, pode-se dizer se for preciso, remonta à "Esquecer Foucault". Houveram várias fases... depois teve a " Esquerda divina ", que foi a fratura política. Em seguida, a " Guerra do Golfo " e agora o "Complô da Arte" . No final, foram quatro etapas no calvário... (risos). Quer dizer que, a cada vez, teve uma espécie de opção positiva de público e uma recaída – é como se eu tivesse feito de propósito…

S.L. – No meio dessa onda negativa atual " provocada por você" , eu vi há pouco numa livraria uma publicação francesa que me pareceu altamente apologética do seu trabalho : " Não esquecer Baudrillard" .

J.B. – Sim, mas esta é uma pequena iniciativa de um colóquio que aconteceu em Grenoble, há dois anos. Muito provinciano… aliás, eles publicaram o título de forma tão minúscula e invisível, que é como se Baudrillard tivesse sido realmente esquecido… (risos) É isso que é bom…

S.L. – Mas é um livro elogioso…

J.B. – É, tem alguns textos interessantes, mas, o livro em si, não possui nenhuma importância. Não muda a imagem… Não vale nada contra esta intoxicação adversa que é a da " denúncia" …

S.L. – Você que foi crucificado quatro vezes depois de " Esquecer Foucault" , não pensa que isso também é uma boa estratégia para " não esquecer Baudrillard "  ?

J.B. – (Risos) Ah ! Crucificado, sim ! Depois as coisas se ajustam, há outras que acontecem, tudo isso se passa como uma trajetória com dimensões definidas, como se fossem ondas… não se trata de estratégia. Depois de " Esquecer Foucault" , teve o episódio da " esquerda divina" , o que eu escrevi sobre o socialismo e o poder, etc, etc. Ali eu fui alienado… e teve também a pequena história da " sedução" do lado do feminismo, mas isso não foi grande coisa !(risos) Com a " esquerda divina" eu mexi com todo o meio político. A partir daí é que comecei a ser estigmatizado como "  suspeito " , politicamente, de não estar realmente à esquerda, como se deve estar. E isso ficou, a imagem está feita…

S.L. – Com a " Guerra do Golfo" e também com " A Ilusão do Fim" , você trata do mesmo crime : o assassínio da realidade e a exterminação de uma ilusão – a ilusão vital, radical, do mundo, pela hiper-realidade. As suas proposições sobre a realidade também são inaceitáveis e politicamente incorretas no sistema de valores realistas.

J.B. – Isso tudo foi um verdadeiro escândalo. No momento em que você toca… bem, os meus livros são muito metafísicos, muito voadores, mas quando você nomeia um pouco as coisas : Foucault, a esquerda, o socialismo, a guerra, a arte ; aí você entra no domínio dos grupos, das máfias, das igrejinhas, e como eu ando sempre ao contrário do convencional… Enquanto eu escrevo livros como a " Transparência do Mal" ou " O Crime Perfeito" , onde há coisas muito mais duras, isto não é levado a sério.

S.L. – Durante o ano em que você estava escrevendo sistemáticamente para o " Libération" , isso ficou claro, não ?

J.B. – E como ! Quando eu escrevia sobre o virtual, o visual, o viral, as pessoas apreciavam e não havia problema nenhum. No entanto, se tocasse em Mitterrand, o presidente, ou na arte, aí eu levantava imediatamente uma espécie de escândalo.

S.L. – Era porque você estava entrando no domínio de especialistas ?

J.B. – Não é isso, pois quando eu escrevia sobre economia, os profissionais jamais reagiam… Para eles, eu não faço parte da corporação e a minha palavra não tem nenhuma espécie de importância. Contudo, se você cai naquilo que é da atualidade política ou artística, você entra no " campo" e é fuzilado.

S.L. – Supõe-se, então, provavelmente, que você deve estar dentro destes meios ?

J.B. – Que eu devo estar, ou que eu estive. A opinião é o quê ? São os críticos, os jornalistas, os intelectuais. A " opinião" quer que você tenha um discurso radical. Isto não é um problema, ao contrário. Ela te admira por causa disto. A " opinião" ama os discursos radicais ! Porém, você não deve cair na realidade, não devem haver conseqüências, está proibido descer ao jogo atual das coisas…

S.L. – A " opinião" têm medo ?

J.B. – Sim. Eles vivem num duplo nível. O nível imaginário radical, onde eles admiram Artaud, Nietsche, Céline, Duchamp, todos aqueles que estão além do bem e do mal, sem nenhum preconceito moral. É muito bom como exercício de admiração, mas eles não levam em conta, de jeito nenhum, as pessoas no plano real, quer dizer " real" entre aspas. Então há uma dupla moral : podemos ser imoralistas no plano imaginário, mas na realidade temos que ser morais, politicamente corretos, estar do bom lado, etc. Se, de alguma forma, você quiser juntar as coisas, aí, você é um mau elemento…

S.L. – A seu ver, estas reações moralistas são viscerais ?

J.B. – São viscerais no sentido em que são socialmente enraizadas. Esta " inteligência" está nas instituições, no sistema, na rede. Isso conta, é a realidade dela. E ela não quer perder os seus lucros. Há os que evoluem dentro disso com muita habilidade. Alguém como Phillipe Sollers, que na cabeça é um libertário, imoralista etc, sabe muito bem encontrar uma tática de acomodação. Eu que não sou diplomata, efetivamente, consigo me alienar quase por completo…

S.L. – É. Realmente a sua atuação não tem nada de diplomática ou de ajustada, bem ao contrário. Quando você apareceu com o blaser de lamê em Las Vegas, o " Canard Enchaîné" teve a " bondade" de lhe colocar ao lado de Johnny Halliday…

J.B. – Isso foi copia do Village Voice de Nova York. O Le Monde publicou uma matéria séria sobre o assunto, pois o evento tratava de um tema, o " destino" , a " sorte" … A questão da Guerra do Golfo é mais interessante, porque havia pessoas que estavam contra ou a favor, e para mim não era nada disso. O que eu colocava em questão, não eram as opções morais ou políticas, mas a realidade da Guerra. Aí eu tive todo mundo contra mim.

S.L. – Como você disse na época, a Guerra do Golfo, tal como ela chegou a nós, era o " assassinato daquela realidade" pela híper realidade das milhares de telas de TV, onde a realidade expulsava a realidade… Você era o observador, anti-diplomáticamente, neutro, mas as pessoas estavam indignadas demais, envolvidas demais, para entender isso.

J.B. - Exatamente. A questão não era de estar contra ou a favor da Guerra e sim de estar contra ou a favor da realidade da Guerra, da superstição da realidade das coisas. As pessoas reconheciam que a Guerra existiu virtualmente, mas não aceitavam que se pudesse criticar a sua realidade, pois se sentiam visadas na defesa de sua quota de realidade. Ninguém mudará nada na realidade das coisas, se não se compreender o conceito de realidade. É uma proposição filosófica, mas foi tomada completamente por uma coisa imoral !

S.L. – Há pouco tempo, na recente manifestação popular contra as leis de imigração aqui na França, que teve o apoio de todos os intelectuais e artistas, você me perguntou se eu tinha assinado o manifesto com ar de quem achava tudo aquilo um absurdo…

J.B. – E era. Inútil. Tudo funcionava como uma auto-justificação de solidariedade. Eu não queria participar deste falso testemunho que é uma forma de diagnóstico de impotência. Eu tomo sempre o exemplo do tribunal de Haia, que é um tribunal de guerra que julgou e condenou os servos. Naquele momento havia uma petição de intelectuais que reclamavam a aplicação do julgamento deste tribunal. Eu não ia assinar uma petição como essa ! O tribunal de Haia já é um sinal da impotência ocidental em alcançar a paz no bom sentido do termo. Não se pode fazer as coisas no terreno, então se cria um tribunal. Ele dá um veredicto que é inaplicável. Então vêem os intelectuais para exigir que o tribunal execute esse veredicto. Eu não sei porque eu entraria num processo inútil como esse , que não serve senão para salvar a boa consciência desses valores ocidentais, dos quais, aliás, eu não partilho.Mas isso é uma outra historia…

S.L. – Então porque você não explica melhor a sua posição – que está fora do bem e do mal - a essas pessoas que não o entendem? Porquê você recusou a ir hoje ao programa do Guillaume Durand na TF1 , canal de informações daqui?

J.B. – Eu já disse tudo… Esse tipo de coisa não serve senão para aprofundar a sua culpa… Só presta como argumento negativo aos outros. E eu não tenho vontade, pois é preciso entrar, de todo modo, numa análise mais sutil, fazer as pessoas passarem um pouco para o outro lado, e elas não tem a mínima vontade de se deslocar, tem um universo bem distribuído : ou você está do bom lado das vítimas, ou não está. Ou você está bem à esquerda, ou você não está. Ou você está do lado da realidade e da miséria, ou você não está. Não sei… não há nada a fazer ali… . Eu já tentei, mas como não sou masoquista não vou entrar mais nessa…

S.L. – Na questão do artigo " O Complô da Arte" , publicado há um ano no Libération, onde você constata a " nulidade"   da arte contemporânea (o que provoca polêmicas até agora), você também deixou este espaço vazio às explicações. Quantas pessoas lhe pediram para dar continuidade ao seu pensamento e desenvolver melhor o que dizia ! A mim, pessoalmente, isso parece uma necessidade… inclusive contra a injustiça das " denúncias" das quais você fala no início.

J.B. – Sim, mas, você sabe, o artigo foi o que ele foi. Eu o quis provocador, isso faz parte do jogo. A provocação você não explica. É um golpe. Você tem vontade de entrar no campo de um modo brutal…

S.L. – Mas isso é frustrante…

J.B. - É frustrante justamente para aqueles que estão na profissão, para os críticos. Mas é uma espécie de consideração em bloco – brutal, é verdade – que procura sacudir, simplesmente, a situação e fazer com que se passe a uma outra coisa… O artigo não foi feito para explicar. Porém, há muita coisa ali, e nas entrevistas que saíram depois, que as pessoas não leram e não quiseram ler.

S.L. – Há também muita coisa que não foi lida no artigo que você publicou na revista " Krisis" , considerada como de extrema direita, o que o colocou numa situação delicada no meio artístico francês. Como você falou da  nulidade da arte contemporânea, diz-se que você teria sido recuperado, como se previa, pelos reacionários.

J.B. – Este artigo foi escrito muito antes do " complô" , e trata de arte, cinema, e tudo mais. Mas isso, ninguém discutiu. Ninguém leu. Tomou-se o suporte como pretexto para não discutir o fundo. As pessoas só querem acertar contas.

S.L. – E depois colocaram você ao lado de Jean Clair e de outros, como se você corroborasse as idéias reacionárias deles…

J.B. - Na verdade, fizeram vários tipos de misturas : primeiro, o fato de me confundir com os curadores de arte. Depois, o que foi mais determinante : de um lado você tem o problema da arte, nulidade ou não, isso se discute. De outro lado, há a questão política, da extrema direita atualmente, etc. A confusão deles foi a de transportar o problema estético à ideologia política, e de dizer que se eu coloco a arte contemporânea em questão, é porque sou de extrema direita. Com esta colagem, eles anularam toda a problemática. Isso é o que é o pior. São práticas intelectuais ignóbeis, verdadeiramente fascistas.

S.L. – E como é que fica a sua neutralidade intelectual face a problemas reais como a ascensão da extrema direita de um Le Pen, por exemplo ?

J.B. – Eu não faço parte de nenhum lado. A esquerda não sabe como tomar posição contra Le Pen, ou a situação política. Não tem nenhuma estratégia eficaz, nada. Eles também não sabem como resolver o problema gravíssimo do lado da arte – não há alternativas, não há perspectivas, nada. Dos dois lados eles estão impotentes. Então, o que encontraram como solução, foi colar os dois, e resolver um pelo outro. Você compreende ? Se arte está em questão, é porque foi posta ali por pessoas da extrema direita ! E vice-versa ! Trata-se de terrorismo, de uma operação de chantagem. E se há duas coisas que eu não suporto, são a chantagem e o arrependimento. Se eles esperam que eu vá me arrepender, certamente não. E se eles esperam que eu vá " chanter" também nunca! A chantagem e o arrependimento são as duas tetas da obscenidade intelectual.

S.L. – O que me surpreende é que você nunca esteve, nem pretendeu, estar " dentro " da arte. Apesar de ser um artista, digo, um fotografo e um criador – pois inventa idéias e imagens - você sempre foi um marginal, no bom sentido de quem se afasta para ver melhor. Querem que você seja um outro !

J.B. – No problema específico da arte, que hoje está difícil de isolar, pois foi misturado com a política, eu não tenho solução. Talvez um dia eu poderei intervir, mas não será para esclarecer a situação. Veja bem, existe um mal-entendido. Não tenho nada a ver com os artistas, não tenho nada a ver com o objeto de arte, tenho a ver com a arte como objeto. É o objeto da arte que eu coloco em questão. Não é o objeto de arte, não é o que é bom ou o que é ruim, se a arte deve ser de vanguarda ou figurativa… Não é o meu problema. É assunto de Jean Clair e de outros. No interior do campo estético, isso eles tem direito de expor e os artistas de tomar partido, mas eu não estou dentro, como você diz… porisso é que há uma confusão total. Eu coloco a arte quase como uma categoria antropológica – trans-estética, em todo caso - e o que é hoje um objeto estético ? Eu digo : não há objetos propriamente estéticos depois de uma certa revolução que houve, seja por Duchamp, por Warhol, etc, onde não se pode mais fazer arte como se fazia antes, salvo exceções que não justificam o resto. Não é porque teve Bacon, que a arte existe !

S.L. – Você sabia, e concordou mesmo assim em publicar numa revista de extrema-direita. É o seu orgulho que não o deixa se defender ?

J.B. – Orgulho… sim. Eu acho perfeitamente deselegante a defesa e o arrependimento. Eu não penso nada de " Krisis" , não ligo à mínima. Estou fora da moral política. Para começar, eu sou contra o princípio de realidade moral. É claro que eu não tenho uma opinião favorável sobre a extrema –direita. Mas também não tenho sobre a esquerda. E ao invés de perceberem que eu não sou conformista, me atacam… É impossível retificar essa história ; eu não vou admitir que é um erro, porque acho que é um falso processo. E não tenho mais nada a dizer ! Você me pergunta as mesmas coisas que estão me perguntando há dois meses ! Se não sou responsável pela minha imagem, como é que posso fazer isso, etc, etc…

S.L. – E você não é responsável ?

J.B. – Mas não ! Você não me vê nesse jornal, com o Johnny Halliday ? O que é que eu tenho a ver com isso ?

S.L. – Você não respondeu como é que fica a sua neutralidade diante dos problemas gravíssimos que existem hoje na França.

J.B. – Eu começo a entender como é que a " inteligência" bem pensante consegue fazer com que certas pessoas se tornem de extrema-direita ! Ainda não é o meu caso, pode ficar sossegada. Sabemos, desde 68, que não existe mais a esquerda, nem a direita. Que os dois são exatamente equivalentes. Escute, a única sorte da esquerda hoje é que ela tem o Le Pen. Aliás, foi ela que o colocou lá. Hoje o Le Pen é o único analista selvagem, radical, desta sociedade. Infelizmente este analista ele está na extrema-direita, e não há mais nenhum na esquerda. Mas, se há um, tanto melhor ! É uma grande uma sorte, pois se há anticorpos que se desenvolverão, será graças a Le Pen. No entanto, isso eu não posso dizer, pois serei injustamente acusado de tomar partido de Le Pen.

S.L. - É sutil demais para a cabeça das pessoas…

J.B. – É, porque elas entendem as coisas na contramão, são primitivas como aquela história do mensageiro que é morto porque traz uma notícia ruim (risos). Você não pode dizer coisas objetivas como estas, a partir do momento em que se recoloca em causa a impotência da esquerda, dos intelectuais, etc. Você não tem direito : é um traidor e tem que ser denunciado… Le Pen é idiota , estou de acordo com a esquerda, mas ele encarna, exorcisa, a própria idiotice e impotência da esquerda. São eles que o alimentam. Tudo isso é rudimentar, evidente…

S.L. –Você está fora dos terrenos políticos, mas-apesar de ser um artista, digo, um fotógrafo e um criador – pois inventa idéias e imagens - é um " outsider " também no campo da arte.

J.B. – Evidentemente eu também não estou dentro da arte. Para o problema específico dela, que hoje está difícil de isolar, pois foi misturado com a política, eu não tenho solução. Talvez um dia poderei intervir, mas não será para esclarecer a situação. Veja bem, existe um mal-entendido. Não tenho nada a ver com os artistas, não tenho nada a ver com o objeto de arte, tenho a ver com a arte como objeto. É o objeto da arte que eu coloco em questão. Não o que é bom ou o que é ruim, se a arte deve ser de vanguarda ou figurativa… Não é o meu problema. Esse é assunto de Jean Clair e de outros. O interior do campo estético, isso eles tem direito de expor e os artistas de tomar partido, mas eu não estou dentro, como você diz… porisso é que há uma confusão total. Eu coloco a arte quase como uma categoria antropológica – trans-estética, em todo caso - e o que é hoje um objeto estético ? Eu digo : não há objetos propriamente estéticos depois de uma certa revolução que houve, seja por Duchamp, por Warhol, etc, onde não se pode mais fazer arte como se fazia antes, salvo exceções singulares e radicais que vão contra estes movimentos de arte contemporânea banalizada e estetizada. Mas estas exceções não justificam o resto. Não é porque teve Bacon, que a arte existe !

S.L. – Pena que os críticos, ao invés de lhe atacarem, não se sirvam de suas idéias para alargar a discussão…

J.B. – Se os críticos fizessem isso, eles precisariam recolocar em questão um certo número de postulados, o status da arte como atividade privilegiada, essencial, intemporal, sublime, etc. Isso eles certamente não estão dispostos a fazer, porque terão que se abordar a si próprios e questionar a arte que eles mantem como uma marca de fábrica – não se questiona uma marca de fábrica.

S.L. – Você vê a arte como uma categoria antropológica, trans-estética, mas quando escreve sobre os artistas que gosta, não deixa de fazer " crítica" do objeto de arte, no sentido mais tradicional. É o caso de Charles Matton, Sophie Calle, Olivier Mosset, Bacon e até mesmo de Wharol e Duchamp…

J.B. – Para mim, Wharol não é bem um artista. Ele me interessa como alguém que passou ao outro lado. E mesmo os outros, Bacon é alguém que não está na estética, e sim na sua ilusão radical que lhe pertence. Eu não os defendo. Eles se defendem sozinhosPara mim, os artistas verdadeiros e geniais são aqueles que fazem alguma coisa sem tomar para si a ilusão da arte e da história da arte. Da mesma forma como na teoria, onde o verdadeiro pensamento radical é aquele não representa mais a comédia das idéias ou da história das idéias. É isso que traça uma linha real de demarcação.

S.L. – Então, evidentemente, são os artistas com os quais o seu pensamento se identifica…

J.B. – Ah ! Sim ! Completamente. Sinto uma cumplicidade, uma intimidade. Mas, além do belo e do feio, do bem e do mal.

S.L. – Eu gostaria que você me falasse um pouco de seu último livro de entrevistas que acaba de sair, " O Paroxista Indiferente" . O título é ótimo ! Trata-se de um oxímoro, um paradoxismo, não?

J.B. – Tudo está no título (risos). O paroxismo é geralmente o S.L. último, extremo. Na verdade, não. Literalmente, quer dizer o penúltimo, antes do fim. Não é o fim. É o S.L. exatamente antes de quando já não há mais nada a dizer. É onde eu me coloco sempre : não no fim, porque não acredito nele, é uma ilusão, mas justo antes. É a minha posição estratégica. Antes do fim, ou depois dele, pois o fim não existe. E, depois " indiferente" , porque o oxímoro, enquanto palavra, também é exatamente homológico a isto : " oxis" quer dizer extremo, agudo, radical, e " móron" quer dizer neutro, banal, etc. Então, " oxímoro" significa exatamente " Paroxista Indiferente" . Você vê, há um espelho, e isto me agrada muito. Além do que, se parece comigo…

S.L. – É uma entrevista biográfica ?

J.B. – De jeito nenhum ! Eu recusei ! Todos querem sempre me levar ao terreno biográfico, às histórias, às pequenas histórias, etc, e também ao campo ideológico, político. Já é suficientemente complicado ficar no meu domínio.

S.L. – Mas as grandes personalidades tem uma biografia ! Não lhe interessaria uma biografia sua ?

J.B. – Eu não tenho biografia. A minha vida não tem nada. Eu ensinei vinte anos na universidade e escrevi algumas coisas. Não pertenci a nenhuma instituição, nem a um grupo… nunca tive uma existência pública como Malraux, nunca quis isso.

S.L. – As biografias falam das mulheres, dos amores, dos amigos…

J.B. – Eu não vou contar sobre as minhas mulheres ! ! ! Se é para contar sobre minhas mulheres e minhas viagens, então, basta ler " Cool Memories"  ! Esta é a minha verdadeira biografia. É uma maneira metafórica de contar a minha vida. Não me interessam os diários íntimos.

S.L. - " Cool Memories" é metafórico demais para uma biografia. Não se sabe o que é ficção, ou verdade…

J.B. – É isso. É o máximo que pude fazer. Eu também não sei o que é verdade ou não. Você lê nas entrelinhas…

S.L. – Você deve se divertir montando sempre um quebra-cabeças para que as pessoas reconstituam o todo …

J.B. – Sim. É isso que é interessante ! É preciso fazer as pessoas adivinharem as coisas. Há muitos elementos pessoais, mas elas não lêem, só as idéias, porque estão acostumadas a idealizar. Deve-se aprender a ver as coisas subjetivas também. Tudo que eu conto é igualmente subjetivo, mas precisa ser dado como expressionismo : " eu estou aqui ! eu existo ! gosto de pão de mel, etc !" Quando você se expõe assim, não é por acaso que fica caricatural ! Tenho apenas uma bibliografia e uma existência. Cioran dizia que muitos sacrificam a existência pela sua biografia… Eu não pretendo sacrificar a minha…

1997


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